ÀS VÉSPERAS DO CAOS

por Camila Britto

Crônicas Em 04/10/2018 19:39:27

Não me espantaria se você dissesse que as últimas semanas têm sido difíceis e carregadas de um ar muito mais pesado e denso. Também não me impressionaria perceber que muito desse sentimento se deve às eleições e toda a movimentação gerada em torno desse acontecimento. 

Todo indivíduo tenderá a reagir à mudança de maneira defensiva. Mudança é aquele negócio que só pode ser considerado bom depois de já ter acontecido. Antes disso, ela é o prenúncio do caos. Somando isso à polarização que se estabeleceu entre a direita e esquerda em nosso país, temos ânimos ainda mais exaltados, e a maior animosidade vista desde a redemocratização do Brasil. 

Em pleno século 21, às vésperas de mais uma eleição, ainda sofremos de uma debilidade acentuada, caracterizada pela falta de respeito pelo lugar do outro. 

Não falo das manifestações políticas ou apolíticas em si, pois elas reservam um lugar de expressão importante e essencial para todos nós. Mas falo da insistência em criar nomes obtusos e imagens vexatórias de candidatos e de seus eleitores, do fato de desmerecer mulheres que se posicionam ou não, e adotar a agressividade como único recurso a fim de conseguir não sei bem o quê. 

Afinal, essa seria uma boa pergunta: qual o objetivo ao desrespeitar a opinião alheia em nome de uma suposta democracia? Para quem se faz valer o direito de se expressar em tempos tão desequilibrados quanto às pessoas que nele coexistem? 

Ainda não ensaiei nenhuma resposta para essas questões, mas tenho aqui uma reflexão que já externei algumas vezes e sinto a necessidade de corroborar: sabe qual a única coisa que podemos mudar no outro? A forma como o enxergamos. De resto, mais nada. A mudança real ocorre por meio do autoconhecimento, reflexão genuína e pelas experiências significativas (boa parte das vezes, as experiências dolorosas). Por isso, os ataques coléricos que usamos para afirmar nossas convicções são puro desperdício de energia. 

Em meus textos, não é raro que eu tente trazer palavras de conforto como colo de mãe, ou um abraço de alguém amado. É uma forma de aproximar, de empatizar com o que o outro sente e tentar oferecer algo positivo. Mas o cenário atual é angustiante e incômodo como a sensação de não se encaixar em lugar algum, ou o sentimento de que algo duvidoso está por vir. Esse é o medo atuando. E ele aparece com uma força obstinada nesses dias. 

Que seu medo não tire sua humanidade. Que seu desejo por um país melhor e mais justo não te faça cometer nenhuma injustiça. Que, depois dos votos encerrados, ainda tenhamos o sentimento remanescente de esperança que sempre nos fez continuar, e que continuará fazendo. Tranquilize-se. Compreenda. Parafraseando um grande escritor de nossas terras, uma coisa é sentir que está seguindo o caminho certo. Outra coisa e pensar que ele é o único.