As várias faces de uma dor

por Camila Britto

Crônicas Colunas & Opiniões Em 15/03/2019 22:25:38


Um dia, uma família comemorou unida um aniversário pela última vez, antes de sua casa desabar. Um dia, um pai de família foi para seu trabalho e um mar de lama impediu que ele retornasse para casa. Um dia, o filho de alguém acordou, foi para a escola e não voltou.

Há dias em que não há outra saída a não ser morrer um pouco mais. Quando as pessoas perdem seu familiares em tragédias; quando sonhos são soterrados em um mar de lama; quando crianças são cruelmente assassinadas.


Em cada acontecimento, morre um pouco de nós. Algo que não pode ser recuperado se perde. Um vazio se instala. O mal-estar de toda uma sociedade está consumado. 
E por que crianças morrem nas mãos de indivíduos comparados a monstros? São as armas; os jogos violentos; as séries de TV; a situação do país; o posicionamento do atual governo; as falhas do governo anterior; são os portões da escola que estavam abertos; o despreparo dos profissionais para lidar com tal situação.

 
É tudo isso. Mas também não é nada disso. “Tudo isso” é nossa maneira de se defender frente ao sofrimento, tentando desesperadamente buscar culpados e afastar de todos nós esse cálice cheio de lágrimas de dor. 


E também não é nada disso, pois se tiramos as armas de fogo, ficam o machado e a faca; se excluímos os jogos e as séries violentas, há ainda o noticiário de tv e a violência instalada no próprio seio familiar; se muda completamente a situação do país, sabemos que, em países de primeiro mundo, como nos EUA, existem tragédias como essa aos montes; se criticamos o governo atual, o que diremos sobre o anterior? Se jogamos pedras no governo anterior, não seria mais apropriado cobrar o governo atual?
Se fechamos os portões da escola, será que a violência será de fato impedida de entrar? 


Entramos em discussões infinitas, tergiversando sobre possibilidades. 
Mas nos encontramos nesse mesmo ponto: há dias em que a única saída é morrer um pouco mais. Entregar-se ao pesar e à tristeza, pois não há fortaleza que aguente tantos bombardeios. Morrer um pouco com cada criança que se foi, com cada mãe que chorou, com cada vítima que viu o horror diante dos olhos. Morrer um pouco para, quem sabe, renascer na semente de esperança que brota cada vez que surge um herói, como a mulher que protegeu dezenas de alunos com coragem e destreza. É como uma luz. É a luz de que cada um de nós tanto necessita nos dias nublados.

Hoje, mais do que nunca, precisamos cuidar da saúde mental. Há um mundo profundamente doente, e a consequência dessa patologia crônica mostra, todos os dias, sua cara.