As raízes da Associação Afro

Sthefane é a trajetória perfeita que resume o trabalho de dez anos da Associação Afro em Santa Isabel. Na descoberta e aceitação de suas origens, ela conquistou seu espaço e fez valer seus direitos

Educação Mulher Em 20/11/2015 17:27:31

Reportagem: Bruno Martins

 

Criada em berço humilde, cuja família se resume em uma tataravó que foi escrava, mãe e avó empregadas domésticas, Sthefane Nascimento dos Santos tinha tudo e todos os motivos para não ser nada, mas escolheu ser livre. Com traços de uma negra forte e voz que impõe respeito, Sthefane venceu a barreira do preconceito e foi a primeira entre os Nascimentos dos Santos a se formar na universidade. Hoje aos 23 anos preside a Associação Afro-Brasileira Nossa Senhora Aparecida em Santa Isabel e busca através de sua história ajudar jovens a aceitarem suas origens e encontrarem seu espaço na sociedade. 

A trajetória de Sthefane resume todos os trabalhos feitos pela Associação Afro nestes dez anos de existência em Santa Isabel, que contribuíram para a formação de mais de seis mil jovens. Ela entrou para o projeto em 2005, na primeira turma de informática, quando tinha 13 anos. Depois de aluna tornou-se disseminadora de tudo o que aprendia no local, auxiliava nas aulas e com um tempo passou a ajudar nos serviços de diretoria. 

Além da informática, a Associação oferece também cursos preparatórios para o vestibular e foi graças a essa preparação que Sthefane obteve uma boa nota na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) onde se formou neste ano na turma de pedagogia: “Escolhi a área pedagógica, pois o princípio da formação humana, parte da educação”, declara. 

Foi através dos trabalhos e das famílias atendidas pela Associação Afro que Sthefane buscou argumento para defender sua tese em seu trabalho de conclusão de curso, que abordou a luta dos movimentos sociais para a colocação do negro na sociedade. Mesmo representando 51% da população brasileira, a Pesquisa Nacional de Amostras e Domicílios (PNAD) de 2013, indica que a população negra representa 8,75% dos cidadãos empregados no Brasil. Para Sthefane esse dado preocupante precisa ser melhor discutido: “Embora temos uma cota que nos garante uma porcentagem em cargos, sejam em empregos ou universidades, além de outros direitos garantidos por lei, ainda estamos na posição de inferiores”, lamenta. 

Tanto no vestibular quanto no concurso público, que prestou para tornar-se professora na rede municipal de São Paulo, Sthefane abriu mão do direito as cotas. Questionada por que, ela tem a resposta direta: “O sentido real das cotas se perde quando temos poucas vagas para vários negros que se candidatam a ocupá-las”, diz. 

Por sua sagacidade, Sthefane foi eleita no final de 2014, presidente da Associação Afro, ela é a quarta pessoa a ocupar o cargo, cujo mandato é de dois anos. Além dela passaram pela presidência o Prefeito Pe. Gabriel Bina e Jovelina Lourenço dos Santos, que morreu no início do mês vítima de um câncer. Jovelina foi homenageada, nesta semana, com uma moção de aplausos na Câmara Municipal de Santa Isabel. Fabiana de Sousa presidiu a Associação em dois mandatos.  

 

Dez anos de Associação

Em uma cerimônia repleta de homenagens a Associação Afro recebeu na quinta-feira, 19, na sede do Clube de Santa Isabel as honrarias pelos dez anos do seu trabalho social que já beneficiou milhares de famílias isabelenses.

O que começou através da criação da Pastoral Afro, há 18 anos atrás, quando o prefeito Pe. Gabriel Bina era o líder religioso da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, hoje funciona em parceria com a secretaria de Cultura de Santa Isabel. 

Sua criação em 2005, permitiu não só a desvinculação religiosa com a Paróquia, mas também a vinda de recursos parlamentares para arcar com as despesas dos trabalhos. Nos últimos anos a Associação arrecadou R$ 200 mil em emendas parlamentares e recebeu um apoio de cinco mil de dólares do instituto Adveniat da Alemanha, que financia projetos pastorais da igreja católica. Comerciantes e empresários locais também apoiam o projeto. 

Não só adolescentes são o foco dos trabalhos, como também homens e principalmente mulheres negras que ainda são as maiores vítimas do preconceito social. A Organização das Nações Unidas – ONU divulgou um estudo no início do mês que indicava um aumento assustador nos casos de homicídios de mulheres negras no Brasil. Entre 2003 e 2013 o número de mortes nesse grupo, aumentou 54,2%, o que deixou o país em 5º lugar no ranking mundial. 

Do outro lado deste triste cenário estão vidas como a de Sthefane e Fabiana diferentes gerações que se encontraram na Associação Afro e ali fixaram suas raízes. Hoje administram o projeto na esperança de fazer com que mais negros se reconheçam, se descubram, se amem.