Ameaça

por Roberto Drumond

Colunas & Opiniões Em 23/09/2017 06:22:51

 

“Ou as instituições solucionam o problema político pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”.

A frase do General de Exército Antonio Hamilton Mourão causou mais desconforto em Brasília,

entre os políticos, do que na população. Do ambiente em que ela foi pronunciada, em uma Loja Maçônica de Brasília, ressoou no meio da elite, sem chegar ao chão do país que já se encontra cansado do enorme peso que vem carregando com as sucessivas denúncias de corrupção e que, aparentemente, não levam a lugar nenhum.

Os políticos se preocuparam e tentam entender o porquê o General não foi punido por sua manifestação exatamente no dia em que o Ministro Rodrigo Janot assinava, ao lado de sua carta de despedida, a segunda denúncia contra o Presidente Michel Temer por participação em organização criminosa e obstrução da Justiça.

A voz de Mourão foi isolada e não parece que tenha levado outros militares a refletirem sobre o seu significado. Mas, já há quem o considere candidato nas próximas eleições para a Presidência da República embora ele insista em se intitular “soldado” e não “político”.

Para outros, a frase do militar é uma ameaça velada ao ex presidente Lula. “Os Poderes terão que buscar uma solução, se não conseguirem, chegará a hora em que teremos que impor uma solução… e essa imposição não será fácil, ela trará problemas”, numa referência concreta à afirmativa de alguns extremistas de que, se Lula for preso, “irão incendiar o país”.

Há vários modos de ver a essa declaração. O simples fato de as Forças Armadas estarem ocupando

pontos estratégicos do Rio de Janeiro oferece uma oportunidade de treinamento para qualquer

eventualidade de seu emprego. Hoje os militares estão à caça de militantes do crime, especialmente do tráfico de drogas e seus correlatos. Mas amanhã poderão se dedicar a outro tipo de caça que, sem dúvida nenhuma irá se abrigar onde encontrar armas para se defender. O General nesse caso está simplesmente revelando a sua visão estratégica diante de uma ameaça que ele considera concreta.

Ao dar pouco significado à sua fala, tanto o Ministro da Defesa quanto o Comando Geral do Exército, tacitamente concordam de que poderá haver, de fato, a necessidade de uma intervenção militar. Manter o General Mourão disposto a expressar uma solução que ele considera viável mesmo sem o apoio declarado dos militares é apostar na certeza de que, se necessário for, esse instrumento será utilizado. E uma expressiva parte da população vai apoiá-lo na esperança de mudar o cenário no qual estamos vivendo.

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