Ainda que tardia!

por Roberto Drumond

Colunas & Opiniões Em 28/09/2018 20:33:09

O final da novela que começou no dia primeiro de janeiro de 2001 não surpreendeu ninguém, nem mesmo os vereadores envolvidos no episódio. Acreditavam mais na capacidade dos advogados em protelar a sentença do que, efetivamente, na decisão pelo “Transitado em Julgado”.

Alencar e Maurício, enquanto esperavam o tramite da Justiça analisando suas histórias, amealharam diversos mandatos, seja como vereadores ou como gestores de diversos setores da administração pública, conquistando além da experiência uma extensa rede de contatos políticos que certamente vai lhes garantir colocação nos próximos anos.

Não me surpreenderia se nas eleições de 2024 os dois aparecessem de volta em busca de algum mandato. Ambos são habilidosos o suficiente para permanecer nos bastidores da política e voltar depois de passado o período da condenação, como fez Collor de Mello.

O episódio em que se viram envolvidos não gerou prejuízo ao erário público, sequer houve enriquecimento ilícito. Somente demonstrou que a ética está longe do cenário político, aliás não só do cenário político. Compra e venda de favores está tão presente na vida pública do brasileiro que é difícil encontrar alguém que consiga provar não se envolver com algum tipo de negociação obscura. O toma lá dá cá está tão impregnado no “modus operandi” da vida que já há quem julgue ser normal. Da exaltação do ser humano, valorizando a vaidade como moeda de troca, ao descarado pagamento, propina e suborno, de tudo se encontra entre os seres humanos, independentemente de bandeiras.

E não é só no ambiente político: na Justiça, na imprensa, nas forças armadas e até mesmo nas empresas privadas percebe-se que se houver uma megaoperação nos moldes da Lava Jato, uma grande parte do país vai por água abaixo.

O resultado final dessa novela pelo menos reforça a fé de que, mesmo que tardia, a Justiça faz a sua parte. Para os atingidos pela decisão do STF uma perda de dois anos de mandato, o impedimento de disputar uma eleição e a certeza de que não houve a impunidade, na verdade o grande veneno que vem sendo absorvido pela sociedade brasileira há muitos séculos.

Veremos na próxima semana o quanto o brasileiro é capaz de condenar ou absolver. As eleições que acontecem no próximo domingo vão nos ajudar a compreender a forma com que a maioria da população brasileira compreende as ações da justiça (ou da injustiça). O incógnito que sairá das urnas, quem quer que seja, tem muitas faces e uma delas é do agrado (ou desagrado) dos eleitores e não importa o seu passado, pois, quem sabe um dia, haverá punição como houve essa, 17 anos depois.