AI, Ai!

por Roberto Drumond

Crônicas Em 01/11/2019 23:02:34

O “ai” é quase que internacionalmente uma expressão de dor. A variável do acento “aí” pode mudar o sentido, mas será sempre a conjunção de duas vogais que podem significar muito. Aprendi que existe o “significado” e o “significante”. O primeiro é o conteúdo de qualquer palavra. Assim, se ouço a palavra “dor” ela provoca em mim uma série de impressões psíquicas que ensejam uma determinada reação. Já o significante é o conjunto acústico provocado pelas três letras.

Essa semana o deputado Eduardo Bolsonaro levantou uma lebre que deveria estar sepultada há muitos anos. Entre os significados da dor ele apontou que uma ameaça de duas letras “AI” cujo significado é “Ato Institucional” que provocou aí, no nosso país, muitos ais. Ais de pais, de irmãos, de amigos, esposas, namoradas ou simplesmente brasileiros que se viram, em um determinado momento de nossa história privados de direitos elementares.

Não adianta vir depois com pedidos de desculpas. A palavra lançada é irreversível e nem mesmo a sua pretensa “imunidade parlamentar” pode ser escudo que lhe dê o direito a falar asneiras. Sua fala, por ser filho do Presidente Jair Bolsonaro, revela que tal possibilidade pode ter sido aventada na roda daqueles que hoje detêm o poder e, mesmo que em socorro do filho, o Presidente tenha vindo depois desconsiderar a sua opinião, nada muda. Especialmente quando parte de quem foi cogitado para representar o país na maior potencia do mundo.

Tudo indica que a expressão “dormindo com o inimigo” pode se aplicar perfeitamente ao presidente Jair Bolsonaro. A oposição que seus filhos andam lhe fazendo está longe das competências de todos os partidos de esquerda da história desse país. Nem mesmo o PT dos tempos de Ulisses Guimarães que rejeitava tudo o que defendeu depois teve a competência de quebrar os humores do presidente José Sarney. 

Bolsonaro perdeu o sono e as estribeiras ao gravar o vídeo em resposta às insinuações divulgadas pela TV Globo a respeito de seu relacionamento com os suspeitos do assassinato de Mariele e do motorista. Deve ter perdido mais ainda com a manifestação tosca de seu filho invocando o fantasma do AI 5 e todos os demais “ais” conseqüentes. O trio Bolsonaro Eduardo, Carlos e Flávio ajudariam muito mais se economizassem a língua, falassem menos e buscassem compreender mais. O fato de ocuparem cargos políticos, eleitos na sombra do nome, não lhes dá direito de remexer a memória acordando temores que o país não merece.