Água a Baixo

por Roberto Drumond

Crônicas Em 02/03/2018 21:43:35

Construída para ser uma via de mão dupla, a interligação que começa a operar hoje, a título “precário”, inicia suas operações no lado contrário. Ao invés de levar água da represa do Atibainha que, com tanta chuva está no limite, vai levar a água da represa do Jaguari cujo nível está abaixo do desejado.

A diferença de nível foi inclusive o motivo alegado para que a cerimônia de início de atividades tenha sido transferida para as margens da represa em Nazaré Paulista, afinal seria um cenário desolador tirar água de um reservatório vazio.

O título de “precário” na licença de operação expedida pela CETESB (Companhia de Tecnologia e Saneamento) é um recurso dissimulado. Na prática, jamais a Sabesp (Saneamento Básico do Estado de São Paulo) poderia receber o documento cuja primeira exigência é a concordância da Prefeitura com todas as contrapartidas assumidas pela empresa por ocasião do alvará para as obras.

Nenhum compromisso está concluído, outros nem foram iniciados e a “Licença de Operação a Título Precário” tem a duração de seis meses e pode ser automaticamente renovada sem manifestação da administração municipal, tal como foi expedida e publicada no dia 12 de janeiro passado.

O último compromisso assumido pela Sabesp foi o de que, no último dia 26/02, iniciaria a recuperação das estradas afetadas pelas obras. Pelo menos 14 quilômetros de estradas vicinais foram praticamente destruídas para a colocação dos enormes tubos que vão levar a água do Jaguari, afetando a vida da população que reside na extensa área rural de Igaratá, o município mais afetado pela construção. Embora no dia marcado máquinas tenham sido enviadas para o início da recuperação, no dia seguinte foram deslocadas para assegurar o tráfego de carros, ônibus e caminhões com a logística do evento desse sábado

Compromissos estão em andamento, como a reconstrução da Unidade Básica de Saúde, mas promessas como a adequada conclusão do bota-fora de solos retirados do trecho das obras; a construção do Posto de Saúde do bairro da Boa Vista, a perfuração de poços artesianos em área que necessitam de abastecimento de água, como o Bonsucesso; a doação de um caminhão pipa e um limpa fossa; estarão à margem da cerimônia de hoje.

Esperemos que apenas não sejam esquecidos meio aos discursos de solução para o problema do abastecimento de água da grande São Paulo, razão pela qual todo esse investimento está sendo feito. Caso contrário a interligação da represa continuará sendo uma via de mão única tirando de quem não tem para dar a quem já tem.