Acolhimento da dor

Por Érica Alcântara

Crônicas Em 31/01/2020 21:24:46

Há tanto que falar nesta semana, que uma parte de mim, confesso, fica confusa. Mas a confusão é igualmente parte do ser humano, então minha confissão é também um desabafo de que a minha escolha é determinada por minha humanidade.

Acima dos problemas do Enem, da chuva intensa em Minas Gerais - que assola minha terra natal e umedece as minhas raízes, acima das longas filas dos aposentados, do medo dos vírus asiáticos, coroados ou não... acima de tudo isso, a frase: “Quando uma mãe perde um filho, todas as mães sentem um pouco” foi exatamente o que mais me tocou.

Não. Eu não a conhecia. Nem mesmo os pais que choram sua perda. Mas esse vazio, essa tristeza que parece dilacerar uma pessoa por dentro, a gente sente na cidade inteira. Como se o luto se espalhasse nas nuvens e a água que cai do céu se torna lágrimas de todas as mães do mundo.

Há quem diga que sobre isso não devemos falar, como se o silêncio pudesse curar as feridas? Não curam, pois ninguém sabe o tamanho e a dimensão da dor de uma pessoa que atenta contra a própria vida. E nesta hora não cabe julgamento. Não julgue quem parte, não julgue quem fica. Acolhe, que emergencialmente o acolhimento é tudo de que se necessita.

Depois pense, que vivemos numa sociedade que precisa falar sobre a depressão, sobre o desespero, sobre a dor. Estamos nos acostumando a viver ocupados em sermos bonitos nas selfies, exemplos de sucesso e vitalidade, fantasiando vidas que talvez não passem de ilusões programadas com filtros falsos da realidade... que passamos achar errado admitir que somos frágeis. E que às vezes o peito dói, como se o coração dançasse num ritmo diferente da música da vida.  

Precisamos falar de suicídio. 

Mais uma jovem perde a vida para a depressão. E eu gostaria de abraçar seus pais, seus amigos, todos os seus entes queridos com palavras de afeto. Respeito. Amor. Deus. Meus sentimentos e o desejo de que a fé conforte o coração dos que ficam.

Para toda a sociedade restante digo que a morte vem como um grito de alerta. Precisamos falar de saúde mental e emocional. E principalmente, precisamos ouvir e ver o próximo. Sem julgamentos tão pesados, tão dilacerantes, pois a perfeição não passa de um conceito hipotético do ideário humano. 

Precisamos de amor. Aquele tipo que não cobra nada em troca. E, igualmente, por amor admitir que às vezes precisamos de ajuda. 

Em todos as cidades da região existem profissionais de atendimento em saúde mental/emocional vinculados ao Sistema Único de Saúde – SUS. O Centro de Valorização da Vida – CVV possui atendimento 24h online e por telefone 188.

Se você sente que precisa de ajuda. Saiba: VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO.