Acampados na calçada

Se não fosse a droga a gente estava em casa, diz Marcelo Augusto, morador de rua há 10 anos

Cidades Em 08/06/2018 21:15:01

“Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão”, o trecho da música de Vinícius de Morais escrita em 1980 combina com o pequeno cortiço montado numa calçada do Centro de Santa Isabel, na Rua Quinze de Novembro.

Na manhã de terça-feira, 05/06, Marcelo Augusto, 25, e Marcelo Felipe, 28, contaram que o consumo de álcool e de drogas leva muitas pessoas para viver na rua. “Sou de São Paulo e depois de seis meses vivendo no Centro da Capital, sabia que tinha que procurar outro lugar, decidi que o primeiro ônibus que passasse eu iria entrar, foi ele que me trouxe para cá”, conta Augusto, interrompendo a conversa para oferecer serviço de guardar carros na via.

O Felipe veio depois, chegou contando que sentiu no coração que a PM (Polícia Militar) iria enquadrá-lo, por isso se afastou do pequeno cortiço. “Moro na rua há 10 anos, sou ligeiro”, diz. Acende um cigarro, aparentemente, de entorpecente e conta um pouco sobre os seis filhos que não vê há certo tempo e vivem em Minas, com a família que ele deixou para trás. Felipe faz artesanato, qualquer folha de banana vira pássaros ou grilos na sua mão, conversa com notória educação.

Augusto conta que o Chico e o Boca também moram ali, na calçada. Mas só ele tem ficado nestas noites mais frias. “Acho que a gente vai para a Casa de Passagem, porque estou com febre. Agora com a Associação Afro lá está bem melhor e a gente não corre tanto risco, tem gente batendo nos moradores de rua de Santa Isabel, já morreu um na Praça do Idoso a pancadas”, conta.

Como flanelinha em Santa Isabel, os Marcelo’s contam que é possível fazer de R$90 a R$120 por dia, variando a arrecadação pelo tempo e local de atuação. E com o dinheiro na mão, muitas vezes não resistem e consomem tudo em drogas. 

“A gente quer parar, eu estou limpo já tem uns dias. Para conseguir tem que ter opinião. O crack está em tudo que é lugar, não é desta cidade, é do país. Já vi um homem ser morto na minha frente, com o peito atravessado por uma barra de ferro, tudo por uma porção de crack deste tamanho”, conta Felipe mostrando um pedaço de papel enrolado, do tamanho de uma cabeça de alfinete. “Quando o sangue espirra na nossa cara, aí o medo aperta”, diz.

Em novembro de 2017, por meio de processo licitatório, a Associação Afro Brasileira Nossa Senhora Aparecida assumiu a Casa de Passagem de Santa Isabel, no local são realizadas atividades psicoterapêuticas e de promoção social. Para saber mais sobre o trabalho realizado assista entrevista completa com a Presidente da Associação Afro, Fabiana de Souza, realizada em 29 de março de 2018: https://www.facebook.com/jornal.ouvidor/videos/1643878575730940/

No final da tarde de terça-feira, poucas horas depois de conversar com a reportagem, os Marcelo’s sumiram e todas as coisas do cortiço foram retiradas da calçada. Mas já na sexta-feira, 09/06, pedaços de madeira voltavam a formar nova residência na calçada.