A Vitória de uma Guerreira

“Dia da mulher é todo dia” diz Rose que faz trabalho social em Arujá. Ela é cadeirante há 12 anos mas supera seus próprios limites todos os dias

Perfil Mulher Em 03/03/2017 21:09:33

 

Ela desfila pela pequena sala de 24 metros quadrados em uma cadeira de rodas motorizada. Veste azul combinando com as cores da parede e outros móveis do lugar. Otimista contagiante Leide Rose, de 39 anos, é a personagem do Dia Internacional da Mulher celebrado na próxima quarta-feira, oito de março.

Rose tem um vasto acervo de lembranças, as mais complicadas e as mais felizes de sua vida. Ela recorda o dia 27 de agosto, data que comemora seu aniversário, seu casamento e o dia em que deixou de andar, “é uma data com uma mistura de sentimentos”, fala com voz tremula. 

“Faltavam alguns dias para meu casamento. Eu lembro que estava na correria de arrumar a casa que iríamos morar. Fui deitar e, no dia seguinte, não senti mais minhas pernas”. “Fiquei assustada, com medo, muito medo. Não sabia o que havia acontecido, eu só queria levantar e não conseguia”, lembra emocionada a fase mais difícil que enfrentou. 

A partir daquele dia, Leide foi submetida a muitos desafios, o principal deles era frequentar por cinco anos a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). “Lá, nenhum médico conseguiu diagnosticar o que havia acontecido com minhas pernas”, recorda. Desde então Rose passou a integrar o exército de 18.445 deficientes de Arujá, segundo o censo de 2010, a maioria constituída de pessoas do sexo feminino.

Por isso ela parou de estudar. Rose compara sua paralisia com a de muitas mulheres brasileiras: “Estou numa cadeira de rodas, e muitas pessoas me vêem presa a isto, no entanto, existem muitas mulheres que andam, mas estão paraliticas mentalmente e por isso não caminham para frente. Sou cadeirante, mas nada me prende. Leio e vivo o que a vida me escreve”, resume.

Nos últimos anos Rose implantou em Arujá diversos projetos sociais, muitos deles dedicados a pessoas que, como ela, têm o corpo limitado por uma condição diferente. É a “Tarde de vivências”, quando pessoas sem deficiências sentem na pele o que é ser um cego ou cadeirante; a “Lente Inclusiva” quando 20 pessoas sem visão ganham book fotográfico digital; e o projeto “Libras na Praça” em que profissionais ensinam os gestos mais comuns entre os deficientes auditivos.

Atualmente a mulher “Guerreira” – como gosta de ser reconhecida- movimenta um projeto intitulado “Cantinho da Leide Rose”, um espaço para aulas de dança do ventre, bordado a fita, crochê, tear, violão, tricô, aulas de inglês, massagens e reforço escolar, tudo com baixo custo e destinado à população em busca de alternativas de atividades e geração de renda, tudo para crescimento da comunidade, diz ela.

Questionada sobre o que faria no dia em que vier a andar, a Guerreira enxuga as lágrimas, embala um sorriso largo e diz: “Antes me ajoelharia, gritaria; obrigado Senhor!. Depois faria festa”, brinca. Para o Dia da Mulher Leide deixa um recado vibrante: “oito de março é o dia em que festejamos o Ser Mulher, o Ser Mãe e Esposa. É o nosso Dia, nada mais Justo! Assim como eu, muitas outras mulheres lutam diariamente em busca do melhor para suas vidas e famílias. Viva as mulheres!”.