A TRAGÉDIA DO LUCRO

por LUIS CARLOS CORRÊA LEITE

Crônicas Em 01/02/2019 22:38:50

Contrariando o dito popular de que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, o estado de Minas Gerais conheceu na semana passada mais uma tragédia envolvendo a mineradora Vale. 

E isso foi causado pela mesma negligência observada três anos antes no município de Mariana: a falta de cautelas técnicas na manutenção de uma barragem de rejeitos de minério. E todos que silenciaram após os primeiros momentos da primeira tragédia – inclusive a imprensa e autoridades – agora buscam explicações para o fato. 

Embora desta vez pareça que as mais de trezentas mortes e os danos ambientais irão custar muito mais à milionária companhia, ninguém duvide que tudo foi causado pelo flagelo da moderna sociedade empresarial, que é a busca por resultados. A busca por metas de lucro. Investir em obras de segurança aumenta custos e diminui lucros, o que reduz a distribuição de dividendos, ou seja, a remuneração do investimento em ações e bônus aos diretores. Assim, certamente é feito um cálculo de quanto custa a tragédia e quanto custa preveni-la.

O mesmo ocorre com outras atividades. No sistema bancário também há uma busca frenética por resultados e diminuição de custos. Cada vez mais é reduzido o número e a qualidade de funcionários para atendimento aos clientes, fazendo com que estes esperem por horas para serem atendidos. Calcule-se o tamanho do prejuízo que isso causa à nação, em termos de horas de trabalho ou de lazer perdidas. E as metas impostas aos funcionários bancários? É praticamente impossível fugir do verdadeiro assédio destes para a venda de títulos de capitalização ou de seguros inúteis. E nas lojas? Não se consegue comprar uma geladeira sem que o vendedor tente impingir a compra da “garantia estendida”. O que certamente conseguem com clientes menos informados. E isso não é culpa dos empregados das empresas. Também estes não suportam mais o desgaste psicológico e o stress causado pela pressão das chefias.

A busca por metas certamente tem tornado a sociedade doente, famílias destruídas e, ninguém duvide, o envolvimento de empresários e empregados em atos de corrupção.