A prova

Por Solange Amado

Crônicas Em 29/04/2016 15:02:02

Solange Amado

 

Fim do semestre. Prova na Faculdade. Naquele tempo, havia essa coisa esquisita: os alunos escreviam. E tinham de usar todas as letras que a palavra comportava. Nada de bjs, msg, fds ou coisas que tais.

“Façam um texto de uma lauda explicando o que é a rebimboca da parafuseta”. A jovem bateu o olho e entrou em pânico. Deu o maior branco. Pronto! O professor pirou de vez, se já não era o suficiente. Nunca tinha ouvido falar em parafuseta, muito menos em rebimboca, que, ao que parece, ajudava a compor a parafuseta. Desastre total. Passou um bilhete pedindo socorro ao colega da direita, que era, na verdade, meio de esquerda, além de ser um forte levantador de copos. Ele sempre lhe pareceu um profundo conhecedor de parafusetas políticas, e como a política sempre fora para ela uma caixa de minhocas, o jeito seria mesmo pedir ajuda ao universitário em questão.

Não demorou muito e a resposta veio no verso do papel: “enrolez, enrolez, toujoursresteraquelquechose”. A cara do professor era de poucos amigos. A jovem duvidou que “enrolez” surtisse algum efeito, mas era pegar ou largar. Se o estupro é inevitável... melhor botar a parafuseta do seu cérebro pra funcionar.

De repente, oito andares abaixo, o som de botas no asfalto surgiu do nada e foi aumentando a intensidade. O glorioso exército brasileiro em mais uma batida na faculdade. Um batalhão armado até os dentes subia a rampa em marcha acelerada, em busca de alguém ou de algo suspeito, de não sei o que, que poderia estar ameaçando a democracia, como era chamado o regime então vigente nesse rincão varonil. Das janelas, a plateia irrompeu num coro de imprecações, só ouvido até então, por juízes de futebol. A jovem sentiu pena daqueles meninos atordoados, metidos em uniformes quentes, subindo suarentos a rampa, recebendo um parco soldo pra marchar em fila com um objetivo que não era muito claro pra ninguém, muito menos pra eles. E lá vão eles, abrindo caminho de cassetete em punho, golpeando esquerda e direita a quem ousasse opor alguma resistência a essa invasão intempestiva. Não era propriamente novidade. Quando a paranoia dos militares supitava, eles faziam essas visitas cordiais à universidade.

De lá de cima a moça viu quando um dos estudantes, seu conhecido, num gesto infantil, intempestivo, impensado, cheio de bravata como sói acontecer com os mais novos, esticou a perna na frente do comandante do batalhão e o homem se estabacou de cara no asfalto. Não deu outra. De repente esse gesto deu sentido ao que já suspeitavam: Aquela casa era um antro de terroristas perigosos. E o terrorista em questão foi levado, preso, algemado, torturado, e repetidamente interrogado: “confesse! Quem deu talidomida à mãe do saci!?” Ele não sabia, mas desceu aos infernos por aquela rasteira fatídica. Muitos e muitos anos depois, recebeu de indenização por tortura, 30 mil reais. 30 dinheiros, como Judas, por sua traição.

Aproveitando o frisson que a visita inesperada provocou na sala, o colega piscou para a jovem e cochichou: “se eles subirem até aqui e cismarem que “rebimboca da parafuseta” é um código secreto pra derrubar o governo, a gente tá lascado”.

Pois é. A jovem envelheceu. Os alunos não escrevem mais. Lápis e canetas fazem parte do museu do ontem. Depois da geração da escrita, veio a geração das cruzinhas. Voltamos à Ilha de Vera Cruz. Agora é a geração do TOC. Além de Transtorno Obsessivo Compulsivo, TOC vem a ser golpear suavemente um botão em uma superfície qualquer. Aí pode-se explodir o mundo, ou virá-lo do avesso, tanto faz. É rápido. E limpo. E econômico.

E vocês vão concordar. Com as lições que estamos tendo dos nossos representantes em Brasília, a jovem tiraria dez com louvor no seu texto, mole, mole. A rebimboca da parafuseta ficou de uma transparência virginal, clara como água, e bem brasileira. E nenhum país do mundo tem esse recurso.

No momento, está claro que precisamos trocar a parafuseta. o problema está sendo achar uma rebimboca que se ajuste legal. E há suspeita de superfaturamento na compra dessa peça. No mais, a zika anda tirando o sono de muita gente.

 

Maria Solange Amado Ladeira

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