A MORTE DA ESPERANÇA

por Camila Britto

Crônicas Em 12/01/2018 20:21:10

Suicidou-se a Esperança. Pulou do décimo terceiro andar do prédio cinza. Todos se amontoaram para ver quão triste é o momento em que a última a morrer simplesmente desiste. A dona de casa que acreditava que ela só precisava de uma nova distração sentiu o estomago revirar. O médico teve certeza de que alguns comprimidos teriam evitado o fim. O juiz procurava o culpado. O motorista que dizia que ela só queria chamar a atenção engoliu em seco. O filósofo só sabia se perguntar o porquê daquilo. O advogado afirmou que o dono do prédio seria processado pela falta de grades de segurança. A vendedora tentou argumentar: “mas ela era tão jovem, saudável, bonita...”. O faxineiro lamentou secretamente o fato de ter de limpar toda aquela sujeira depois que o rebuliço terminasse. O corretor da bolsa de valores se revoltou: “Como essa egoísta pôde fazer isso conosco? Bem no início do ano?!”. O professor chorou como se aquele fosse o prenúncio de todo o fim. O policial pediu que se afastassem da Esperança, precisava preservar o pouco que dela restou. O padre e o pastor sentiram uma pontada de culpa: “Será que eu poderia ter feito algo?”. O palhaço não riu, nem fez rir. Sabia que precisaria arranjar outro emprego – sem Esperança não há riso. O político tinha a convicção de que depois de tamanha tragédia, não haveria eleição – para quê escolher, se não há futuro para vislumbrar? Obviamente, não havia crianças. Uma moça que sequer sabia quem era Esperança pensou em deixar uma mensagem in memorian mostrando que se importava. Mas Esperança não tinha Facebook, e se tivesse provavelmente não a aceitaria como amiga. O psicólogo olhou e calou. O jardineiro aproximou-se e sussurrou em seus ouvidos: “Ontem você me disse que a saúde mental era a riqueza do século. Penso que é assim mesmo. É ela quem tira da gente o peso da vida. Pobre Esperança, não teve uma chance. A dor pesou tanto que escolheu o desespero...será que minhas flores crescerão sem ela?”. O psicólogo calou. Todos estavam realmente pesarosos e assustados. O jornalista já sabia qual seria a manchete mais lida e mais triste de sua carreira: A MORTE DA ESPERANÇA. 

Esse texto foi escrito para a campanha Janeiro Branco, que trata da conscientização a respeito da saúde mental. A esperança ainda não se foi, existem mil maneiras para recomeçar. Se precisar de aconselhamento psicológico, entre em contato. Feliz 2018 cheio de esperança!