90% de toda água que chega na Represa do Jaguari é bombeada para São Paulo

Mais de 400 cidades poderiam ser abastecidas com o volume excedente de água utilizado para diluir o esgoto no Estado do Rio de Janeiro

Cidades Em 09/10/2020 20:51:26

Por Érica Alcântara

Em março de 2015, após uma das maiores crises hídricas já enfrentadas no Estado de São Paulo, Santa Isabel e Igaratá debatiam a proposta de transposição de água da Represa do Jaguari para o reservatório Atibainha, que por sua vez é interligado ao sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de água da Capital Paulista.

Desde a sua inauguração, em março de 2018, a transposição só levou água do Jaguari, nunca as bombas fizeram o caminho inverso e agora, outubro de 2020, a região de Santa Isabel e Igaratá testemunha o reservatório minguar diariamente, alcançando um dos níveis mais baixos desde a crise de 2014.

Na última quinta-feira, 08/10/2020, o volume útil da Represa do Jaguari era de 25,65%. Os dados são da Agência Nacional de Água (ANA) que diariamente publica um boletim de monitoramento da Bacia do Rio Paraíba do Sul.

Todos os cursos d’água (córregos, riachos, ribeirões etc) que hoje desaguam no reservatório do Jaguari somam o volume total de 9m3/s. 

Contudo, a Sabesp bombeia 8m3/s para abastecer o Atibainha, pertencente ao Sistema Cantareira. Para piorar, 40m3/s do Jaguari é enviado diariamente para o Rio de Janeiro.

“Imagine uma piscina em que você todos os dias acrescenta 9 baldes de água, enquanto paralelamente outra pessoa retira 48. Por quanto tempo esta piscina ainda terá água?”, exemplifica o engenheiro agrônomo Juarez Vasconcelos, ex-secretário de Meio Ambiente de Igaratá. 

Segundo Juarez, os 8m3/s que hoje são bombeados do Jaguari para abastecer São Paulo, seriam suficientes para abastecer mais de 40 cidades, o que equivale a todo Vale do Paraíba e parte do litoral norte paulista.

Em fevereiro de 2015, na condição de membro do Comitê de Bacias Hidrográficas do Paraíba do Sul, Juarez participou de uma reunião com o então presidente da ANA, Vicente Andreu, que diante de onze prefeitos do Vale do Paraíba revelou que o governo de São Paulo, já tinha solicitado a captação do volume morto do reservatório Jaguari.

Na ocasião, tal pedido gerou intenso debate entre os entes federados uma vez que a captação do volume morto mudaria todo o estudo de impacto ambiental e social do empreendimento.

“Mas o impacto ambiental, econômico e social já é uma realidade para quem tira seu sustento da Represa do Jaguari”, destaca Jair Simão, membro da Associação de Pescadores Amadores de Santa Isabel Africa Nilo (Apasian), que nesta semana mostrou o sofrimento dos pescadores, que tentam sobreviver diante de um quadro cada vez mais inóspito para o pescado. 

VOLUME DE ÁGUA DESPEDIÇADO PODERIA ABASTECER EM TORNO DE 400 CIDADES

Quando no passado Juarez esteve diante do Presidente da Agência Nacional de Água, ele questionou Andreu sobre a responsabilidade da ANA diante do quadro do reservatório Jaguari, pois a ANA é responsável por determinar a vazão de água para o Rio de Janeiro. “Agora descobriram que Santa Cecília é capaz de funcionar com uma vazão mínima de 110m3/s; mas em 2014, mesmo diante da pior estiagem das últimas décadas, a ANA manteve a vazão de 190m3/s, com desperdício de 80m3/s diário”, destacou Juarez em março de 2015.

Na quinta-feira passada, Santa Cecilia estava recebendo dos Reservatórios Equivalentes (Jaguari, Santa Branca, Paraibuna e Funil) o volume total de 193m3/s, neste caso, o volume de desperdício atual é de 83m3/s, água bastante para abastecer cerca 415 municípios, se utilizarmos o cálculo anterior do Engenheiro, da qual 8m3/s abastecem 40 cidades.

Enquanto os Reservatórios Equivalentes no Estado de São Paulo somam o volume útil total de 28,19%, o reservatório de Lajes, no Rio de Janeiro, desfruta de 85,55% de volume útil.

O QUE DIZ A ANA

Para a Agência Nacional de Água, o Sistema Hidráulico Paraíba do Sul opera dentro dos limites de segurança hídrica. 

Segundo a ANA, a operação cotidiana dos reservatórios do Sistema Hidráulico Paraíba do Sul é realizada sob coordenação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

O QUE DIZ A ONS

“As represas monitoradas pelo ONS são as de geração de energia elétrica e não de distribuição para consumo nas cidades. Para responder as questões levantadas pela reportagem do Ouvidor o Operador Nacional do Sistema Elétrico pede que acione a Agência Nacional de Água (ANA) e a distribuidora de água que atende a(s) cidade(s) em questão”, informa o ONS.

O QUE DIZ A SABESP

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo – Sabesp informa que tem autorização para retirar água da represa Jaguari para o Sistema Cantareira e que a inversão do curso d’água só é possível em caso de extravasamento do Sistema Canteira que registrou ontem, 09/10/2020, volume útil de 39,34%.  

Um estudo feito pela Cobrape (Companhia Brasileira de Projetos e Empreendimentos), encomendado pelo próprio governo de São Paulo, identificou em 2008 que em São Paulo o Índice de Perda na Distribuição (IPD) é de 39%, “o que significa muito mais água do que o volume que captam no Jaguari”, explica Juarez.

A Sabesp garante que desde 2009, com base no Programa Corporativo de Redução de Perdas reduziu as perdas de 34,1% em 2009 para 29,0% ao final de 2019.

O Programa prevê a aplicação de R$6,2 bilhões de 2009 a 2020, em recursos próprios e financiamento do BNDES e da JICA (Japan International Cooperation Agency). Até dezembro/2019, foram aplicados R$5,3 bilhões. O indicador de perdas totais é subdividido em duas categorias: reais e comerciais. As perdas reais correspondem aos vazamentos nas tubulações, e totalizaram 19 pontos percentuais em 2019. As perdas comerciais, ou seja, a água que é consumida, mas não é contabilizada, decorrem de fraudes, falhas de cadastro comercial e submedição de hidrômetros, e corresponderam a 10 pontos percentuais no mesmo período.

O QUE DIZ O DAEE

De acordo com o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) o Grupo de Assessoramento à Operação do Sistema Hidráulico Paraíba do Sul (GAOPS), coordenado pela ANA, acompanha todos os reservatórios do sistema (Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil). O grupo também acompanha a Elevatória de Santa Cecília e Lajes.

“A outorga concedida à Sabesp para transferência de água da represa de Jaguari para a represa de Atibainha é de 5,13 metros cúbicos por segundo na média anual, podendo ser bombeado até 8 metros cúbicos, sempre respeitando a média e nível do reservatório”. 

O DAEE informa que realiza monitoramento contínuo do volume das barragens, de forma a garantir o abastecimento da população, “e neste momento não há necessidade de interferências no reservatório do Jaguari”, finaliza.

AS PERDAS INCALCULÁVEIS

O aluguel de chácaras e sítios à beira da Represa do Jaguari, os restaurantes e as marinas são diretamente impactados com o baixo volume do reservatório. O atrativo principal vai ficando cada vez mais distante e muitos empreendimentos começam a avançar suas rampas de acesso à água dentro da área da CESP.

O gado começa a pastar onde antes havia água. “E a velocidade com que os Jet Skys passeiam sobre as águas mais rasas, acaba levantando ondas que contribuem para o agravamento assoreamento das margens”, diz Jair Simão. 

Jair destaca que os peixes criados em tanque rede pela Apasian sofrem, pois, a temperatura da água está acima do ideal, aumentando o risco de proliferação de bactérias e os peixes menores são vulneráveis a esse tipo de elevação da temperatura.

Além disso, a baixa profundidade da água dificulta a retirada dos peixes dos tanques rede, que não podem ser arrastados no fundo. E quanto mais tempo no tanque, mais o peixe consome ração e mais afeta o cálculo de investimento da próxima criação. “Possivelmente teremos que redimensionar toda a criação, pois a cada ano a represa abaixa mais”, lastima.